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 Mt 18, 21-35  “Não lhe digo sete vezes, mas até setenta vezes sete”

Este texto trata do último dos problemas comunitários no discurso de capítulo 18, o perdão. Mais uma vez é Pedro que articula em palavras o desafio cristão, “quantas vezes devo perdoar o meu irmão?” e responde ele mesmo, sugerindo “sete vezes”, com certeza achando que agir assim seria um exagero. Mas, para Jesus não basta o discípulo agir segundo os critérios desse mundo – o nosso modelo de ação sempre deve ser o Pai. Por isso, exige “não somente sete vezes, mas setenta vezes sete”, ou seja, para quem realmente quer se modelar em Deus, o perdão tem que ser sem limites.

A frase lapidar é tirada da tradição comum que Mt partilha com Lucas, (Lc 17, 4); mas, Mateus acrescenta a parábola dos servos, para ilustrar a necessidade de misericórdia sem fim. A ideia básica inverte a posição sangrenta e vingativa de Lamec em Gn 4, 24: “Se a vingança de Caim valia por sete, a de Lamec valerá por setenta e sete!” O cristão tem que deixar definitivamente por trás todo sentimento de vingança e assumir os novos valores do Reino de Deus, entre os quais tem lugar de destaque, o perdão. A parábola provavelmente foi composta pelo autor mesmo, para ilustrar um dos pedidos do Pai Nosso, “perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores”. Fazendo esse pedido, estamos querendo o perdão de Deus para que, experimentando-o, consigamos perdoar os nossos devedores (originalmente se referiu realmente às dívidas financeiras, mas aplica-se às ofensas em geral). Não é que o perdão de Deus depende do nosso – é sempre Deus que toma a iniciativa e nós que respondemos. Mas, somos capazes de render nulo o efeito do perdão do Pai, se nós não queremos perdoar os outros. Assim, o Pai continua querendo nos perdoar; mas, nós cortamos o efeito dessa gratuidade divina. Obviamente, o perdão envolve um processo todo, que abrange não somente a parte espiritual, mas também psicológica, da pessoa. Não se consegue eliminar os efeitos das ofensas de uma só vez. Mas, o importante é o “querer” perdoar. O próprio desejo já é o perdão, pois é somente com a graça divina que nós conseguiremos perdoar mesmo. Mas, quando esse desejo é ausente, nem o perdão do Pai penetra a barreira que nós erguemos e o seu perdão fica sem frutos. A proposta do texto de hoje é além das nossas forças humanas; mas, não além da possibilidade da graça divina. Por isso temos que sempre pedir o dom do perdão, conforme nos ensina a Oração do Senhor, para que as nossas comunidades sejam verdadeiramente sinais do Reino e não meramente aglomerações de pessoas que partilham as mesmas teorias teológicas, mas, sem que essas influenciem na sua vivência, na sua prática. Da nossa parte exige-se esforço, e Deus dará a força, para que vivamos conforme o desafio do Sermão da Montanha: “sejam perfeitos, como o Pai do Céu de vocês é perfeito” (Mt 5, 48).
Pe. Tomaz Hughes, SVD