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Mt 21, 28-32 “Os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino de Deus”
Esta é a primeira de uma série de três parábolas sobre o julgamento. Todas estão dirigidas ao mesmo público - os chefes dos sacerdotes e anciãos, ou seja, ao grupo de elite dentro do sistema religioso de Israel. A parábola aqui trabalha com um esquema - o que é o “dizer” e o “agir” em resposta à vontade de Deus. Sendo parábola, que trabalha com simbologia, os dois filhos podem representar diversas personagens: o mais jovem pode representar o povo de Israel histórico que disse “sim” (Êx 19, 8) e não cumpriu com a sua palavra (Jr 2, 20), ou a geração do tempo de Jesus diante da pregação de João Batista e de Jesus. O segundo filho pode representar qualquer um que se arrepende: as duas categorias que recebiam então o rótulo de “pecadores”, mas, que aceitavam o convite de João para o arrependimento; também os pagãos que se convertem e creem em Jesus.
No fundo, a parábola retoma um tema muito claro no Sermão da Montanha: “Nem todo aquele que me disser: Senhor, Senhor! Entrará no Reino de Deus, mas aquele que cumprir a vontade de meu Pai do céu” (Mt 7, 21). Mateus é o Evangelho da prática da vontade do Pai, revelada em Jesus.

O contraste entre os grupos na parábola chega a ser chocante - de propósito. De um lado temos a elite do sistema religioso judaico, que se considerava justa e sem qualquer necessidade de arrependimento; do outro lado, os pecadores públicos, bem conscientes da necessidade de conversão sincera. A parábola traz a mesma mensagem daquela do fariseu e do cobrador de impostos em Lc 18, 9-14, e tem ecos de uma outra parábola com dois irmãos - a do “Filho Pródigo” em Lc 15, 11-32.
Esse texto nos desafia para que façamos um exame de consciência. Quantas vezes rotulamos pessoas e grupos como pecadores, injustos, desprezíveis, a partir das aparências e dos nossos preconceitos, enquanto nos contentamos com uma prática externa de religião sem consequências práticas para a sociedade, assim como faziam os chefes dos sacerdotes e anciãos do tempo de Jesus. Hoje em dia, podemos não ter publicanos (o termo técnico para o cobrador de impostos da parábola, pois o imposto cobrado chamava-se “publicum”); mas, quantos são desprezados nas nossas comunidades como os publicanos de então, por serem “drogados”, “aidéticos”, “homossexuais”, “prostitutas”, “divorciados” ou por outros motivos? Quantas vezes nos contentamos com uma religião que consiste em simplesmente cumprir a tabela dos ritos e rituais, com a moral burguesa da sociedade idolátrica consumista, sem perguntarmo-nos sobre os frutos de justiça da tal prática!
Mateus insiste que é pelos frutos que se conhece a árvore. Os ouvintes dessa parábola devem ter ficado chocados e ofendidos com a frase de Jesus, “os cobradores de impostos e as prostitutas (pessoas consideradas irremediavelmente perdidas) vão entrar antes de vocês no Reino de Deus”. Pois, Jesus desmascarava a religião dominante em Israel, que, escondida atrás de rituais e minúcias legais, marginalizava a maioria e lisonjeava uma minoria que se outorgava o direito de julgar os outros, sem dar frutos de justiça, partilha e solidariedade! “É pelos frutos que se conhece a árvore” (Mt 7, 20). Deixemos que este texto chocante nos interpele, examinando os frutos reais da nossa prática, para que não caiamos na cilada dos chefes dos sacerdotes e anciãos, apontando os erros dos outros e julgando-os, sem sentir a nossa própria necessidade de arrependimento.
Pe. Tomaz Hughes SVD